27 de Junho
Mal chego à fronteira, um lugar onde a estrada de terra batida fica para trás, trato de tentar arranjar um transporte que me leve à cidade de São Pedro de Atacama.
Passo no controle de migração bolivianos e ali em cima nos 5000 metros com vista perfeita para o vulcão espero que venha algums transporte para me levar até São Pedro.

Divirto-me a fotografar uma raposinha que se diverte ou procura comida na minha mochila. Em Portugal, as raposas fogem, esta passeia-se à minha beira.
A viagem até São Pedro é curta, mas a falta de solavancos e saltos no banco fazem-me passar pelas brasas.
Depois de revistado entrada do Chile entro na cidade.
Bem, a primeira impressão que tenho é que já não me sentia acolhido assim numa cidade desde que tinha saído de Cuzco.
São Pedro é uma cidade no meio do deserto, rodeada por montanhas e vulcões. Direccionada para o turismo tem relações extremamente fortes com o povo antepassado indígena e tem uma cultura muito própria.
Cidade com casas baixinhas, assentes em tijolos artesanais, em que as pessoas se deslocam na cidade de bicicleta, dão à cidade um ar agradável e muito calmo e relaxante.

Estamos no inverno, de dia sente-se um calor agradável mas de noite faz um frio descomunal. Abaixo de zero de certeza.
Saio da camioneta e a minha preocupação é arranjar um sitio para dormir. Não foi tarefa difícil. Mesmo ali ao pé descobri um hostel impecável a um minuto da rua principal da cidade, onde estão as melhores tendas de artesanato, os melhores restaurantes, cafés e imensas agencias que vendem passeios nas imediações de São Pedro.

A cidade é realmente pequenina e não tem muito por onde se ir. É uma rua principal e umas transversais. Excelente cidade para poder passear a pé.
O hostel é assim um espaço open space estilo hippie. É um terraço central com decoração hippie, com os dormitórios em redor, umas caminhas de rede e um espaço comum ao ar livre tornam o espaço agradável.
Deixo as minhas coisas e não tenho muito tempo para me pôr a dormir.
Saio e tenho uma pontaria bestial. Procuro um restaurante para comer e acerto no mais caro da cidade.:)
Os restaurantes e bares aqui são fantásticos. Arrisco-me a dizer que são os restaurantes mais acolhedores e aconchegantes onde estive.
Nada de decorações muito espampanantes e cheias de mariquices

Tudo muito simples mas muito em função da cultura deste povo. Tudo muito genuíno com artigos decorativos indígenas e sem coberturas rígidas. Os espaços têm coberturas só ara tapar do sol porque
estou na região mais árida do Mundo.
Como muito bem, e por dez euros tenho uma refeição que em Portugal, e fazendo contas ao espaço onde estou não pagaria menos de 30 ou 40 euros.
Depois de tratar de algumas questões logísticas sigo durante a tarde para alguns dos pontos que gostaria de visitar neste espaço.
Saio da cidade num mini bus e vejo-me no Deserto do Atacama.

A paisagem é árida e não se vê pinta de verde. Tudo em tons de acastanhado e cheio de declives e formações montanhosas.
Agreste mas muito bonito.
Paro no famoso “Vale da Morte”. Um lugar de cortar a respiração.
Uma antiga crosta oceânica com uma crista dorsal espectacular. Tiro umas fotografias e a intensidade do vento ao me permite estar muito mais tempo naquele espaço.
Sigo para o “Lugar do Coiote” para voltar a admirar esta crista oceânica numa outra perspectiva. Um mirador no cimo de uma falésia com uma vista vertiginosa. Uau… Volta a cortar a respiração.

O relevo, a orientação das montanhas, dos sedimentos contam histórias da evolução da terra durante milhões e milhões de anos.
Estamos na zona mais árida do Mundo, mais seco que o deserto do Sahara. O Deserto do Atacama tem uma extensão de 105 mil Km e está compreendido entre a cordilheira dos Andes e uma outra cadeia montanhosa.
Estas duas barreiras físicas fazem com que tenha condições climatéricas muito próprias.
As formações rochosas neste sítio são únicas e o terreno sedimentar sujeito a anos e anos de erosão dá formas à rocha fenomenais. As três Marias são exemplo claro disso.
Formações rochosas que se assemelham a três Marias na posição de reza.
Segui para o ponto mais aguardado da visita.

“The Moon Valley”
É a continuação da Crista oceânica mas tem este nome porque estas rochas estão cheias de cristais de sal, que em noites de lua cheia tornam a crista Oceânia brilhante e luminosa. Deve ser uma visão fantástica.
Neste espaço escolhemos a duna mais alta para ver o por só Sol.
Durante dez minutos subi uma duna para poder ter uma vista de sonho sobre o vale.
Esperei uns minutos pelo pôr-do-sol que eu e mais algumas pessoas esperava-mos ansiosamente.
O facto é que o por do sol se revelou igual a muitos outros a que já assisti, agora o outro pano de fundo é qualquer coisa do outro Mundo.

Mal o sol se põe, à medida que o tempo vai passando, a cordilheira de vulcões vai ganhando um conjunto de cores que vão mudando. Durante uns minutos fotografo quase sem parar porque me perece que de minuto a minuto tudo está diferente. Os tons iniciais amarelados, passam a alaranjados, depois a tons mais avermelhados e rosas e tudo se acaba em tons de roxo e tudo acaba em tons acinzentados.
É completamente glorioso. Fico completamente parvo.
Já meio na escuridão, desço ainda a pensar naquele momento e paisagem única. Uau!
Este espaço está cheio de historia geológica assim como humana.

As cavernas naturais que visito já em plena escuridão, são cavernas no meio desta crista oceânica utilizadas em tempos pelos povos indígenas que se queriam esconder dos conquistadores espanhóis para poderem falar a sua própria linguagem.
São cavernas místicas e cheias de formações salinas, mas que escondem um passado histórico fabuloso e que me faz sentir meio arrepiado.
O percorrer estas cavernas quase sem luz e em silencio foi uma experiencia fantástica.
Já bem escuro regresso a São Pedro para poder descontrair e me divertir um pouco.

Com a Alicia e a Milly, duas inglesas, primas, muito simpaticas, que decidiram vir passar uns tempos à América do sul, que conheci na fronteira do Chile, vou tomar um copo à noite aos bares de São Pedro.
A noite é agradável, os bares são super confortáveis seguindo aquela linha dos restaurantes com um pequeno pormenor, á meia-noite está tudo a fechar. E porque? Não entendo.
Tem tudo lógica. São Pedro tem uma lei própria que a isso obriga porque o povo de São Pedro tem raízes culturais indígenas e como tal estes não gostavam de festas até tarde. Então, para preservar essa ligação cultural as casas fecham cedo.
Descobri também que actualmente, para colmatar esse “defeito” realizam-se festas clandestinas no deserto durante toda a noite. É pena não estarmos na altura dessas festas. Provavelmente nesta altura estaríamos completamente congelados.
Depois de algumas conversas interessantes e bastante culturais, regresso ao meu hostel para descansar um pouco e ver se aqueço dos 5 graus abaixo de zero que se fazem sentir.