terça-feira, 21 de junho de 2011

Sigo para Sul...

19 de Junho



















 
Os dias em Cuzco passaram, mas novas aventuras me passava pela cabeça.
Ainda na noite do dia 18, no terminal Terrestre, uma estação de camionagem, dou por mim a dizer: isto é uma feira.
Que grande confusão!!!
Vamos imaginar o mercado do Bolhão em dia de grande feira, onde centenas de pessoas caminham por entre um grande corredor cheio de empresas de transporte de passageiros.
Funcionários ao berros apregoam literalmente as viagens e os destinos que têm prestes a partir. Do outro Mundo.
Em cânticos de feira apregoam: “Puno Puno”, “Julliaca Puno” e outros mais.
Na confusão entre bagagens estranhas e pessoas, encontro a minha empresa e reservo-me um pouco numa coisa parecida com uma sala de espera.
Fantástico, estou metido numa sala com couves, batatas, cebolas, ovos, e outros legumes. No meio disto encontro um espaço num sofá para aguardar um pouco… Só me rio…
Estou de saída de Cuzco e vou a caminho de Puno, margem do maior e mais alto lago navegável do Mundo.
A viagem dão cerca de 386 km que demorariam em condições normais 7 horas, mas, que na realidade acabou por demorar 12.
A viagem foi pela noite dentro, não vi rigorosamente nada antes do sol nascer. Parece-me que quando nasceu acabamos por entrar numa estrada alcatroada. Tenho a certeza absoluta que entre 10 da noite e as 5 da manha viajei por estradas que ninguém sabe de terra batida, de acesso a 4X4, mas a camioneta lá ia. Só a mim. Num sono leve lá me ajeitei e fui dormindo.
A paisagem de alvora era meia desértica, mas de montanha. Vegetação muito rasteira e pedra, terreno muito seco.
A finalizar o percurso, já de dia, entrei em Julliaca, cidade que já tinha ouvido falar. Bem é uma cidade que por uma palavra descrevo. Medo!!
Com uma única estrada alcatroada, trânsito de motas, bicicletas, táxis, patrulhas militares, com as casas, que me parecem que estão todas a cair, mesmo aquelas que estão em construção. Uma cidade que me faz lembrar algumas imagens das conhecidas favelas.
A cidade era assim.
Siga.
Chegado a Puno, a cidade um bocadinho melhor, localizada mesmo nas margens do Lago Titicaca, com uma vista fabulosa e linda, mas também com muita pobreza.
Na chegada a Puno, ainda na camioneta, um possível guia da região propõe-me um plano mesmo dentro daquilo que eu queria fazer.
Acerto preços, dou um giro muito rápido por Puno, preparo a mochila e às 11 da manha estou dentro de um pequeno barquito em direcção às “Islas de Uros”, já no meio do Lago Titicaca.
Num barquinho que navega muito, muito devagar, o meu destino era a ilha Carbahal.
As Ilhas de Uros são um conjunto de ilhas flutuantes, construídas sobre raízes de juncos, por um povo, os Uros, que aí vivem.
A medida que me aproximo, vou deixando a cidade de Puno , e subo ao 2º nível do barco para ter uma vista melhor e poder tirar umas fotos.
No meu horizonte vão surgindo, sobre os canaviais uma serie de construções em palha que abrangem todo o meu horizonte.
Estou mesmo na entrada das ilhas. Entro num canal que deverá ter talvez 2, 3 km de extensão, rodeado de pequenas ilhas flutuantes.
Tenho uma visão sobre as ilhas e é fantástica.
São ilhas literalmente feitas de palha, assentes em raízes de juncos que flutuam no lago.
Passo no barco e vejo as famílias a correrem junto das margens para felicitar a nossa chegada. As cabaninhas, o espaço de convívio, o sitio para cozinhar, as torres de vigia, as embarcações para navegarem no canal, elementos decorativos, tudo feito em palha. Fabuloso. Até dentro da ilha têm um viveiro de trutas, animal este que faz parte da sua dieta alimentar.
Parei numa primeira ilha onde sou recebido pelo chefe de família, que me explica o método de construção da ilha, explicando me que cada família tem a sua própria ilha, separada por agua das ilhas vizinhas.
É impressionante o método de construção da ilha, pode demorar a construir um ano, mas pode durar cerca de 20 anos.
O povo de Uros é um povo independente, não tem apoio nenhum do governo peruano e neste momento sobrevive do turismo e do artesanato que produzem para posteriormente ser vendido aos turistas.
Dar uma volta à ilha demora qualquer coisa como 1 minuto. Apercebo-me da forma como vivem, das condições onde dormem, das suas principais actividades, o artesanato e a pesca.
Atravesso o canal e chego exactamente ao local que pretendo. A Isla Carbahal.
Nesta ilha vou passar o resto do meu dia e noite.
Era meu objectivo dormir uma noite com este povo, aperceber-me da sua cultura, partilhar com eles a sua alimentação, dormir sob o céu estrelado do Titicaca, um dos pontos de maior acumulação energética do Mundo.
Chego à ilha e sou recebido pelo senhor Luis Carbahal que me mostra a minha cabaninha. Já estava com saudades de dormidas fora de quartos e camas convencionais.
Tenho uma cabaninha individual, toda feita em palha só para mim, com duas camas também em palha com uns cobertores grossos para o frio da noite. Com a ajuda de um painel solar tenho uma luz na cabana, que não vou usar. Claro que estamos a falar de ilhas sem instalações eléctricas, nem meios de esgoto. Não há casas de banho e a electricidade que há, é à custa de um gerador e luz solar.
Na pequena ilhota, existe uma pequena mercearia, um pequeno espaço para comer, onde a família sobrevive servindo algumas refeições típicas do lago, a famosa Truta frita ou grelhada. Existem também espaços de venda de artesanato onde as crianças recebem os turistas e lhes apresentam os seus artefactos.
As crianças, são um encanto. Pequeninas, rechonchudas, muito escuras de pele, algumas vestidas com trajes tradicionais do Peru, cheios de cores garridas, vêm ter connosco a pedir-nos para vermos o artesanato.
Como uma truta que estava óptima e um caldo de peixe, que não esperava gostar e opto por fugir um bocado à confusão da ilha que naquele momento estava a ser assolada por turistas que chegavam em vários barquinhos.
Retiro-me para a cabaninha e adormeço.
O final da tarde chega cedo e aqui como no Peru anoitece rápido. Já com a ilha deserta de turistas, dou por mim ao sair da cabana cheio de crianças pequenitas ao meu lado, uma ou outra da ilha onde estava, outras teriam vindo com os pais fazer algumas compras de mercearia.
Pego numas caixas de chupas e rebuçados e só me safo, colocando alguma ordem naquiloJ.
Ver o ar daqueles pequenitos de felicidade naquele momento foi do outro mundo. Recordo-me da cara de alguns deles a pegarem nos doces como se precisassem daquilo como ar para viver. Fiquei impressionado mas feliz por ter feito aqueles pequenos sorrir. Desapareceram num ápice.
Aproveito a boleia de um local que naquele momento vai lançar a redes para apanhar truta, num canal por traz da ilha, numa canoa feita de palha e a remos. Vou com ele e num espanhol muito arcaico tento perceber o que ele me diz e explica.
Deixa as redes até à manha seguinte e diz me que vamos visitar a tia e a família numa ilha pertinho.
Muito bem, saio da canoa e sou envolvido por gente que me pergunta de onde sou o meu nome e me diz: “vem ver como eu vivo”. Uma rapariga pega-me na mão e leva-me à cabana dela e mostra-me os seus aposentos. A cama de palha, a máquina e costuras e os pedaços de tecido dos têxteis inacabados estão espalhados no chão.
Não podemos esperar grandes condições de higiene destes sítios. Mas acho que conseguem ser felizes assim.
Uma pequenita ao colo da mãe, com 1 ano, dois no máximo, agarra me e não me larga mais. Chamava-se Sandra. Com a pele muito escurinha e uma roupa amarela fez a delícia de algumas fotos. A mãe pedia-me encarecidamente para lhe enviar uma foto da filha. Estava na ilha do Flamingo. Mostraram-me como vivem, como cozinham e como trabalham.
Volto à minha ilha para um sossegado jantar e me deito, mas sem antes admirar a iluminada cidade de puno e o céu estrelado, onde se salienta muito bem a “Cruz del Sur”.
Dentro do saco cama adormeço, ta uma noite fria.























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