23 e 24 de Junho
Escalar uma montanha, ou subir a um cume alto foi sempre um objectivo desta viagem, não é que escalar uma montanha de 6000 mil metros não estivesse nos horizontes, mas até ao momento em que cheguei a La Paz, por inúmeras questões logísticas não achava que fosse possível.
Proporcionou-se e estou super feliz.
Normalmente a escalado do Huayna Potosi faz-se em três dias mas é possível fazer-se em dois. É de loucos mas faz-se.
Este Mundo não me deixa parar.
Depois de um breve check up ao material e depois de experimentar umas botas plásticas, que era a única coisa que me faltava o grupo seguiu em direcção à base do Huayna onde existe um pequeno refugio com uma vista soberba para a montanha.
Chegado ao refugio tenho tempo de fazer uma refeição rápida preparar a mochila e com o meu guia, o Luis, seguir-mos para os 5300 metros onde existe um refugio de altitude e onde vamos passar a noite. O grupo que vai escalar a montanha em 3 dias fica cá por baixo.
A subida é agressiva e forte, mas sinto-me bem e não estou com nenhum sintoma de que a altitude me esteja a atacar.
Subimos rápido diz o luís.
É tudo muito bonito e o terreno é agressivo e agreste. Tipicamente montanhoso.
Diversos cumes brancos em redor encantam e relaxam a minha vista enquanto trepo.
O cume do Huayna é o mais alto e o mais imponente. Cruzo um primeiro refúgio, que me parece com excelentes condições, mas não é por aqui que me vou instalar.
Calço as botas plásticas, coloco os crampons e sentindo me familiarizado com aquele tipo de terreno, caminho mesmo atrás do Luís.
Depois de uma pequena secção com alguma neve e rocha, com uma vista soberba para o vale e um olhar meio escondido para o cume, surge o abrigo de altitude.
O abrigo, não é nada mais do que 5 chapas, organizadas em forma de contentor com uma divisão separar a cozinha da zona dos beliches. Quais beliches? Uns colchões no chão e outros colchões num nível superior. Mesmo abrigo de alta montanha.
Adoro estes espaços de montanha. Nem toda a gente tem a oportunidade de dormir em sítios como este.
Começa-se a sentir o frio dos 5300, saco as ultimas fotos e abrigo-me.
Depois de um pleno banquet repleto de nudles com maionese e duas salsichas cozidas, tomo um chá e deito-me as seis da tarde porque a noite já vai alta.
Às duas da manha o Luis acorda-me, já estava acordado.
O grupo com quem dormi no abrigo já tinha partido, saímos mais tarde por opção.
Sem muita vontade de comer e sentindo-me meio fraco, tomei qualquer coisa para a febre um matte de coca e partimos para o cume.
As três da manha, os pés e as mãos não chegaram a aquecer.
Encordado ao Luis, vamos subindo lentamente e caminhar a 5500 de altitude não é nada fácil.
Começo a sentir-me cansado e tenho alguma necessidade de parar. É estranho, preciso de uns breves segundos para recuperar mas canso-me rapidamente.
Só com os frontais ligados, vemos outros companheiros mais em cima e outros mais em baixo.
Temos as estrelas como companhia e os recortes da montanha que de noite me parecem assombrosos.
As sensações de escalar uma montanha a esta hora são soberbas, já por mim experimentadas noutras aventuras. São sensações muito especiais, difíceis de explicar. Mistura grande de sensações e sentimentos.
Tecnicamente fácil, com um passe ou outro mais arrojado vamo-nos aproximando do cume.
Nessa altura também me apercebi. Tinhas os dedos completamente congelado, não os sentia simplesmente. Nada. Com um químico quente dentro das luvas e com a troca de luvas com as do luís, aos poucos fui melhorando.
A partir dos 6000 metros a coisa torna-se mais séria.
O ultimo obstáculo antes do cume é um corredor com 45, 50 graus e uma aresta impressionante que é de cortar a respiração.
Do meu lado direito tenho uma pendente completamente vertical, que o Luis diz que tem mil metros, do outro tenho uma pendente rochosa e tenho um espaço de 40 cm para pôr os pés..
A sensação de medo, mistura-se com a ansiedade de chegar ao cume, com a adrenalina. Mistura de sensações terrível.
O sol espera pela minha chegada ao cume para nascer.
Obrigado à Pachamama.
Fazer o cume é uma sensação indescritível, acho que me vêm as lágrimas aos olhos, penso nas pessoas mais importantes para mim, tiro algumas fotos, e nuns breves segundos só para mim, curto o meu momento.
Rapidamente, nos aprontamos a descer, já com o sol a bater-me na cara.
Numa descida descontraída em conversa com o Luis, chego rapidamente ao abrigo de onde parti.
Estou estourado.
Preparo rapidamente as minhas coisas e quero baixar até ao meu ponto de partida na ânsia de descansar de vez.
A descida ainda é longa porque me dói um pé.
Finalmente no refúgio onde ontem iniciei a escala, pude descansar e perceber que a dor no pé era uma unha completamente negra que as ricas botas plásticas me fizeram na descida. Estou feito.
As pessoas com quem nesta viagem tenho partilhado a minha viagem, dizem que sou louco, que sou um viajante corredor. Porque será?
Chego a La Paz as 2 da tarde e as 7 da tarde tenho uma viagem para fazer de doze horas.
Trato de regressar ao hotel onde tinha estado, tomo um banho, escrevo um pouco e passeio-me pelas lojas que vendem material contra faccionado da North Face e outras marcas de montanha.
Sinto-me constantemente tentado a comprar material, que apesar de ser falso tem muito bom aspecto e convínhamos dizer que apesar de falso é bom.
Sinceramente, não tive paciência nenhuma. Vou me arrepender.
No terminal, as 7 da tarde, a confusão do costume dos terminais terrestres das cidades da América do Sul.
Finalmente vou conseguir dormir.
Num banco da camioneta, com o meu saco cama e o meu casaco de penas e mais uns cobertores faço a minha cama para doze horas de viagem.
Sem comentários:
Enviar um comentário