segunda-feira, 27 de junho de 2011

Uma montanha acima dos 6000

23 e 24 de Junho
 
Escalar uma montanha, ou subir a um cume alto foi sempre um objectivo desta viagem, não é que escalar uma montanha de 6000 mil metros não estivesse nos horizontes, mas até ao momento em que cheguei a La  Paz, por inúmeras questões logísticas não achava que fosse possível.
Proporcionou-se e estou super feliz.
Normalmente a escalado do Huayna Potosi faz-se em três dias mas é possível fazer-se em dois. É de loucos mas faz-se.
Este Mundo não me deixa parar.
Depois de um breve check up ao material e depois de experimentar umas botas plásticas, que era a única coisa que me faltava o grupo seguiu em direcção à base do Huayna onde existe um pequeno refugio com uma vista soberba para a montanha.
A montanha nas imediações de La Paz e num carrinha de transporte de pessoas a viagem faz-se aos tombos numa estrada empoeirada durante uma hora.
Chegado ao refugio tenho tempo de fazer uma refeição rápida preparar a mochila e com o meu guia, o Luis, seguir-mos para os 5300 metros onde existe um refugio de altitude e onde vamos passar a noite. O grupo que vai escalar a montanha em 3 dias fica cá por baixo.
A subida é agressiva e forte, mas sinto-me bem e não estou com nenhum sintoma de que a altitude me esteja a atacar.
Subimos rápido diz o luís.
Cruzamos alguns riachos, caminhamos sobre arestas agudas de blocos rochosos, cruzamos algumas cascalheiras e vemos os glaciares desde os nossos pés até aos cumes das montanhas em redor.
É tudo muito bonito e o terreno é agressivo e agreste. Tipicamente montanhoso.
Diversos cumes brancos em redor encantam e relaxam a minha vista enquanto trepo.
O cume do Huayna é o mais alto e o mais imponente. Cruzo um primeiro refúgio, que me parece com excelentes condições, mas não é por aqui que me vou instalar.
Calço as botas plásticas, coloco os crampons e sentindo me familiarizado com aquele tipo de terreno, caminho mesmo atrás do Luís.
Depois de uma pequena secção com alguma neve e rocha, com uma vista soberba para o vale e um olhar meio escondido para o cume, surge o abrigo de altitude.
O abrigo, não é nada mais do que 5 chapas, organizadas em forma de contentor com uma divisão separar a cozinha da zona dos beliches. Quais beliches? Uns colchões no chão e outros colchões num nível superior. Mesmo abrigo de alta montanha.
Adoro estes espaços de montanha. Nem toda a gente tem a oportunidade de dormir em sítios como este.
Começa-se a sentir o frio dos 5300, saco as ultimas fotos e abrigo-me.
Depois de um pleno banquet repleto de nudles com maionese e duas salsichas cozidas, tomo um chá e deito-me as seis da tarde porque a noite já vai alta.
Por precaução, porque não tenho descansado nada e estava sentir me sem repouso, tomei um anti histamínico, só para saber se para alem de fazer bem às alergias me punha a dormir. E pôs. Fiquei com uma moca de sono que peguei no sono rápido.
Não sei que me aconteceu, até as dez fui bem, depois foi terrível. Não sei que se passou, estava constantemente com a boca muito seca e com o nariz muito tapado, acho que fiz um bocado de febre durante a noite.
Às duas da manha o Luis acorda-me, já estava acordado.
O grupo com quem dormi no abrigo já tinha partido, saímos mais tarde por opção.
Sem muita vontade de comer e sentindo-me meio fraco, tomei qualquer coisa para a febre um matte de coca e partimos para o cume.
As três da manha, os pés e as mãos não chegaram a aquecer.
Encordado ao Luis, vamos subindo lentamente e caminhar a 5500 de altitude não é nada fácil.
Começo a sentir-me cansado e tenho alguma necessidade de parar. É estranho, preciso de uns breves segundos para recuperar mas canso-me rapidamente.
Só com os frontais ligados, vemos outros companheiros mais em cima e outros mais em baixo.
Temos as estrelas como companhia e os recortes da montanha que de noite me parecem assombrosos.
As sensações de escalar uma montanha a esta hora são soberbas, já por mim experimentadas noutras aventuras. São sensações muito especiais, difíceis de explicar. Mistura grande de sensações e sentimentos.
Tecnicamente fácil, com um passe ou outro mais arrojado vamo-nos aproximando do cume.
Ainda bem escuro, numa tentativa de aquecer as mãos, o Luis percebe que tenho frio nas mãos.
Nessa altura também me apercebi. Tinhas os dedos completamente congelado, não os sentia simplesmente. Nada. Com um químico quente dentro das luvas e com a troca de luvas com as do luís, aos poucos fui melhorando.
A partir dos 6000 metros a coisa torna-se mais séria.
O ultimo obstáculo antes do cume é um corredor com 45, 50 graus e uma aresta impressionante que é de cortar a respiração.
Do meu lado direito tenho uma pendente completamente vertical, que o Luis diz que tem mil metros, do outro tenho uma pendente rochosa e tenho um espaço de 40 cm para pôr os pés..
A sensação de medo, mistura-se com a ansiedade de chegar ao cume, com a adrenalina. Mistura de sensações terrível.
O sol espera pela minha chegada ao cume para nascer.
Há gente com sorte.
Obrigado à Pachamama.
Fazer o cume é uma sensação indescritível, acho que me vêm as lágrimas aos olhos, penso nas pessoas mais importantes para mim, tiro algumas fotos, e nuns breves segundos só para mim, curto o meu momento.
Rapidamente, nos aprontamos a descer, já com o sol a bater-me na cara.
Numa descida descontraída em conversa com o Luis, chego rapidamente ao abrigo de onde parti.
Estou estourado.
Preparo rapidamente as minhas coisas e quero baixar até ao meu ponto de partida na ânsia de descansar de vez.
A descida ainda é longa porque me dói um pé.
Finalmente no refúgio onde ontem iniciei a escala, pude descansar e perceber que a dor no pé era uma unha completamente negra que as ricas botas plásticas me fizeram na descida. Estou feito.
Mas também uma unha negra e sem sensibilidade em três dedos da mão, é um preço muito baixo para o que viviJ.
As pessoas com quem nesta viagem tenho partilhado a minha viagem, dizem que sou louco, que sou um viajante corredor. Porque será?
Chego a La Paz as 2 da tarde e as 7 da tarde tenho uma viagem para fazer de doze horas.
Trato de regressar ao hotel onde tinha estado, tomo um banho, escrevo um pouco e passeio-me pelas lojas que vendem material contra faccionado da North Face e outras marcas de montanha.
Sinto-me constantemente tentado a comprar material, que apesar de ser falso tem muito bom aspecto e convínhamos dizer que apesar de falso é bom.
Sinceramente, não tive paciência nenhuma. Vou me arrepender.
No terminal, as 7 da tarde, a confusão do costume dos terminais terrestres das cidades da América do Sul.
Finalmente vou conseguir dormir.
Num banco da camioneta, com o meu saco cama e o meu casaco de penas e mais uns cobertores faço a minha cama para doze horas de viagem.






















Sem comentários:

Enviar um comentário