25 de Junho
A noite no autocarro, ao contrário do que o aspecto da carrinha me dizia, até foi bastante confortável.
Os tranportes colectivos na Bolívia são mesmo uma aventura.
Primeiro porque toda a gente viaja de autocarro, ricos, pobres, muito pobres e turistas. Depois não estamos num país onde existem auto-estradas, IPs e ICs a todo o momento. Nem a todo nem a nenhum. Não existem. As estradas com muita sorte têm um alcatrão muito manhoso mas na grande maioria viaja-se em estradas de terra batida.
Mal saí apercebi-me logo do que ia acontecer.
Ponho um pé fora da camioneta, ainda sem a minha mochila, sou abordado por 3 ou 4 pessoas todas a falarem ao mesmo tempo. Num ambiente muito escuro, numa povoação muito escura e estranha, meia dúzia de pessoas tentam vender-me pacotes de viagens para os próximos dias. Já estava à espera de uma coisa destas, mas não as seis e meia da manha.
Então, a primeira voz que ouvi a dizer Atacama, cheguei-me e comecei a fazer perguntas.
Uma senhora com talvez trinta anos encaminha-me para o seu office para me explicar os pormenores das viagens.
Uyuni é uma povoação isolada nos desertos do sul da Bolívia, muito pouco desenvolvida, que sobrevive e tem nome graças aos desertos que a rodeiam.
Espero que o jipe chegue para iniciar a minha aventura no deserto.
Claro que estava à espera de uma coisa destas. Por qualquer coisa como 600 bolivianos, cerca de 60 euros, consigo um tour por três dias com tudo incluído J vai ser bonito, vai.
Começou logo pelo jipe. Um Land Cruiser, com um aspecto muito muito velho, vá todo podre. Mas são grandes máquinas.
No tejadilho trazia pneus bidons que suponho com gasóleo, com todo o aspecto de safari. Agradou-me.
O senhor Abel, o motorista, um boliviano pequenino, bem-disposto, dava-me as boas vindas.
Estava em boa companhia, comigo no jipe seguiam dois casais franceses, um dos quais com uma criança de 5 anos e que viajam pelo Mundo fora à um ano. Fantástico. O outro casal está a viajar à 8 meses, coisa pouca.
Iniciamos a viagem e o primeiro ponto de paragem é um “cemitério de comboios” nas imediações da cidade.
A paisagem é castanha, poeirenta e inóspita.
No tal cemitério repousam comboios, ou melhor o que resta deles, com mais de cem anos, eram utilizados no transporte de minério entre a Bolívia e o Chile.
É uma atracção turística, todos os tours iniciam a sua jornada por ali.
Dei uns saltos por cima das carruagens, entrei dentro das máquinas que outrora, a vapor puxavam as carruagens, tirei umas fotos.
Seguimos, deserto fora e uma das minhas grandes expectativas desta viagem estava para chegar, o Deserto do Uyuni, o Deserto do Sal.
A uns 40 minutos da cidade de Uyuni, está o deserto.
Com 24 mil quilómetros quadrados, o deserto estende-se num manto branco que a minha vista não alcança o fim.
Salpicado por ilhas, que surgem como montanhas cria um cenário fantástico dos mais bonitos que já vi.
Mesmo nas bordas do salar, uma pequena povoação vive da exploração do sal e acabamos por perceber como o faz.
Deserto dentro, já meio embasbacado com a paisagem, as próximas horas serão a bordo do 4X4 em direcção a um hotel de sal e a uma ilha no meio do deserto.
O 4X4 caminha rapidamente pelo manto branco fora enquanto tento absorver a paisagem que é de facto bela.
O hotel de sal, local de almoço também, não é nada mais do que uma construção no meio do deserto, construída com blocos feitos artesanalmente de sal, onde as mesas as cadeiras, as camas, tudo é em sal.
Depois de um almoço cozinhado e preparado pela cozinheira que viaja connosco seguimos até a uma ilha que foi simplesmente um dos pontos mais bonitos da minha viagem.
Num imenso manto branco, sem fim à vista, aparecem aquilo que outrora foram ilhas.
A ilha de Incahuas é uma pequena ilha colocada no meio do manto branco, repleta de cactos que chegam aos nove metros de altura e que chegam a ter mais de 900 anos. Extraordinário.
À medida que subo começo a ter uma visão do deserto sobre a ilha.
A luz do sol a bater naquelas rochas e naqueles cactos com o deserto branco como pano de fundo, deu-me motivos para fotografar sem parar. Completamente absorvido por esta paisagem.
De volta ao 4X4, seguimos na direcção de abandonar o salar, observo os polígonos que o salar trata de desenhar no chão, polígonos esses que criados pela evaporação da água e que dão uma imagem fantástica.
Tudo muito calmo, até ao momento em que o jipe abranda, e claro tinha que ter um pneu furado.
Só faltava esta.
Sem nos deixar ajudar o senhor Abel, com o seu jeito muito engraçado e num espanhol misturado de quando a quando com uma ou outra palavra em inglês, pede-nos 5 minutos.
Já quase de noite, num “pueblo” isolado, com vista para o salar pernoitamos num hotel de sal. Sem duche, numa cama de sal, numas mesinhas de sal, num ambiente muito familiar, humilde e pobre, passo o meu final de dia.
Numa tentativa de escovar os dentes, vim cá fora, porque na casa de banho já não havia agua nem luz, bem dita a hora.
Sou surpreendido com provavelmente o céu mais estrelado que alguma vez já vi. Fico de boca aberta.
Já passeio muitas noites debaixo de estrelas, em vários sítios. Como este nunca vi!
Tenho os meus minutos, não consigo aguentar mais, estou gelado.
26 de Junho
Acordar a ver o nascer do sol sobre um deserto de sal é uma dádiva. Foi assim que o meu começou.
Acordar a ver o nascer do sol sobre um deserto de sal é uma dádiva. Foi assim que o meu começou.
Entre estradas de pedras, terrenos lamacentos e arenosos, com muitos solavancos ou com menos, seguimos o nosso caminho até as lagoas.
A vegetação desaparece e os terrenos arenosos e áridos começam a predominar na paisagem desértica.
Estou rodeado por altas montanhas que nos cumes estão salpicados por pequenos neveiros que permanecem das últimas nevadas.
Toda esta região faz fronteira com o Chile e a fronteira é marcada pelos cumes de grandes vulcões adormecidos que outrora fizeram a geografia desta zona.
É também uma zona geológica muito activa, com para alem de vulcões adormecidos, vulcões também activos, geysers, fumarolas, aguas termais, etc.
Nos caminhos tortuosos pelo deserto fora conseguimos admirar o Vulcão Ollague.
Um Vulcão que nos apercebemos facilmente que está activo, pelo fumo que vai saindo de uma das suas crateras secundárias e pelas diferentes cores que apresenta nas suas encostas, dos gases que vai libertando.
Numa delas, apesar de estarmos em pleno inverno, ainda consigo observar alguns flamingos que por ali repousam ao sol.
Entre uns sustos na condução do jipe, apercebo-me realmente o jipe está com problemas sérios quer na embraiagem quer nos travões.
Sigo a viagem descontraído, mas os casais que me acompanham vão um bocado com o coração nas mãos.
Mesmo antes de chegar ao nosso destino final do dia, cruzamos uma zona árida onde posso admirar bonitas formações rochosas, que ao longo dos milhões de anos foram esculpidas pela natureza. Quer por água, quer pelo vento.
Encontro a "Arbole de Piedra", famosa exilibris deste deserto.
É realmente fantástico como ainda me consigo surpreender com as maravilhas e coisas inacreditáveis que me vão aparecndo.
Ao final do dia, a Laguna Colorada proporciona-me um final de tarde muito bonito.
Está um frio de morrer.
Dormimos mesmo nas margens da lagoa, mais uma vez sem agua quente e sem chuveiro, numa casas muito pobres e muito humildes. Vá uns barracos. Assim é de mais fácil percepção.
Após um jantar simples mas bom, admiro as estrelas do deserto, fico mais uma vez perplexo e meto-me no saco cama.
27 de Junho
O dia seguinte começa bem “temprano” como diz o senhor Abel.
As cinco e meia, longe de ver o sol a nascer, meto-me no jipe e passo pelas brasas durante alguns minutos até sentir o jipe parado.
Não, não estávamos em nenhum ponto turístico.
Não ligava, e pior, a primeira não entrava. Está bonita a coisa está.
Mesmo antes de nascer o sol dou por mim a tentar empurrar o jipe, e cima de pedras e neve a ver se pegava. Nada. Foi preciso ligar os cabos a outro jipe que por ali passava e que deu uma mão.
Correu bem.
A primeira, a muito custo e com alguns pontapés do senhor Abel na embraiagem lá ia funcionando.
Começo realmente a ficar um bocado preocupado com a minha chegada à fronteira do Chile.
Mais uns valentes solavancos e umas saídas fora de estrada pela acumulação de neve e chegamos a uma grande lagoa, a uns 5000 metros de altitude onde a sua superfície estava ainda gelada e era banhada pelos primeiros raios de sol.
Num espaço com infra-estruturas, tomamos o pequeno almoço e numa piscina natural, quase dentro da lagoa pude tomar um banho coma agua termal a trinta e poucos graus. Fabuloso.
Um frio de talvez zero graus cá fora e dentro de água estava-se maravilhosamente bem. Ainda fiquei ali uns minutos a demolhar e a curtir aquele espaço e aquele momento.
Estava muito perto da minha jornada de travessia dos desertos Bolivianos e estava a chegar à fronteira do Chile e a minha viagem naquele jipe louco estava prestes a terminar.
Cruzei o Deserto Roca Salvador Dali, uma paisagem árida, mas as montanhas com umas cores lindíssimas, que com a luz do sol ganham um aspecto especial.
Estávamos a ganhar altitude e o grande vulcão que marca a fronteira entre o Chile e a Bolívia já aprecia no meu horizonte.
A 5500 metros surgia o grande Vulcão Licancahur.
Mesmo antes de chegar à fronteira, já numa estrada de terra batida razoável, um ultimo pico de adrenalina antes de sair e abandonar o jipe.
Com um camião a circular no sentido contrário, o senhor Abel, por não se ter apercebido tarde de que ele e o camião não cabiam os dois na mesma estrada, e por não ter travões, resolve sair fora da estrada mesmo na frente do camião. Esta causou-me alguns arrepios. O que vale é que ao lado estava só areiaJ.
fantástico amigo......!!!!!!!!! grande abraço
ResponderEliminarObrigado Ruizito... grande abraço
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