sábado, 25 de junho de 2011

Atravessar uma fronteira foi uma aventura

21 de Junho
Está na altura de desvendar algumas omissões acerca da minha viagem, que por razoes logísticas ainda não tinha partilhado.
A minha entrada na Bolívia foi uma verdadeira aventura.
Mal cheguei de Machupichu, à uma semana atrás, estava eu em Aguas Calientes e numa conversa com uma menina da Suiça vim a saber, que as coisas em Puno, no sul do Peru, não estava muito famosas.
O povo deste departamento, o que nós chamamos província, estava-se a manifestar e a coisa não estava muito famosa.
As fronteiras para a Bolívia estavam fechadas, por cortes de estradas, inclusive aquelas que eu necessitava utilizar.
Tratei de me informar melhor, a coisa estava preta. Agressões com pedras e roubos a turistas no inicio do mês de Junho assustam-me um bocado. No consulado português no Peru desaconselhavam terminantemente a visita a áreas como Puno. Estava bonita a coisa para os meus lados. Deixem-me estar e fui retirando informações de onde podia. Taxistas, outros turistas, povo local de Cuzco, etc.
Os motivos das manifestações estariam relacionados com a exploração mineira nas redondezas do lago Titicaca e com a construção de centrais termo eléctricas.
O que me tinha apercebido é que o povo de Puno não estava para brincadeiras e andam nisto à quase um mês.
Por este motivo é que a minha viagem de Cuzco para Puno demorou 12 horas, em vez de 7, porque as empresas para não pararem tentaram encontrar caminhos alternativos. Caminhos esses por estradas de terra batida.
Fora isso na cidade de Puno tudo pacífico. A questão era como atravessar a fronteira para a Bolívia.
Estava confiante que ao chegar a Puno ia arranjar uma solução. Ou as fronteiras se abriam ou ia a nado, tinha que ir para a Bolívia.
E não é que aconteceu mesmo.
Mal cheguei a Puno tentei logo de saber como era possível atravessar a fronteira.
Por 100 soles, qualquer coisa como 15euros, lá me disseram que arranjava um barco que me deixava na fronteira do Peru com a Bolivia e que não havia problema nenhum. Nove horas de viagem só até à fronteira. Sendo que o meu destino era La Paz.
Despreocupado comprei a viagem para dia 21 e logo se via no que aquilo dava.
Ficaram-me de me ir buscar ao hostel as 8 horas. Desesperado, eram 8h30 e nada. Comecei a ver o filme.
La me ligaram a pedir para ir ter ao porto que tinha havido um problema com a carrinha que me ia buscar.
Já meio em stress apanho o primeiro táxi que vejo e chego ao porto em cima da hora.
Dizem me que por mais 30 soles posso ir num barco mais rápido que só demora 3 horas.Maravilha. Faço umas perguntas sobre o que tenho que fazer depois de sair do barco e dizem algumas coisas mas basicamente não percebo nada.
Vamos embora.
A viagem foi super tranquila. O lago é realmente magnifico e muito bonito.
Quais três horas? Já passava das 3horas  e meia quando um tripulante do barco nos disse que iríamos ter que pagar 3 soles as pessoas que nos iam fazer o desembarque.
Não percebi nada do que ele estava a dizer até me levantar do meu banco e ver que não íamos atracar em nenhum porto.
Nisto vejo a lancha onde estava a cem metros da costa e a virem em direcção ao barco uns barcos a remos  muito velhos, cada uma com duas pessoas lá dentro, locais, mas com um ar sôfrego para receberem os 3 soles para nos levarem para a margem.
O meu sorriso e as minhas gargalhadas comedidas contrastavam com o ar apreensivo e de pânico de outros passageiros.
Salto para dentro do barco com as minhas mochilas, dou os três soles à senhora e vamos embora para terra.
Saio junto a um campo agrícola, com terrenos cultivado, junto ao lago e vejo ao longe uma povoação. E fronteira? Há?
Numa grande confusão entre gente que estava a sair do barco, gente que queria ir para o barco e peruanos esfomeados por 3 soles lá percebo que tenho que ir em direcção a uma cruz que vejo ao longe e aí algures será o posto migratório do Peru.
A maioria do pessoal que estava comigo era jovem, viajantes de mochila as costas como eu.
Lá vou eu pelo meio dos campos em direcção à cruz branca que vejo ao longe para ver se encontro alguma coisa.
A povoação é Yunguyo e é uma aldeia com postos na rua de troca de moeda e mais nada.
Vou ao posto alfandegário do Peru, carimbo o passaporte e atravesso a fronteira a pé?
Muito bom.
Já no lado boliviano, carimbo o passaporte de entrada no pais e juntamente com um casal de Holandeses, que viajam por um ano e com um Porto Riquenho, apanho um táxi que nos leva até Copacabana.
Todos temos o mesmo destino, chegar a La Paz.
Copacabana e uma pequena povoação já no lado boliviano, famosa pelas trutas, as quais eu já me enchi de comer, e por daí partirem os barcos para as famosas “Islas del Sol e Luna”.
Eu e os meus amigos, chegados a Copacabana tentamos apanhar o primeiro bus que vemos. O que vemos são uns autocarros muito velhos, pintados com muitas cores e com muitos desenhos. Por aqui é tudo assim. Para não falar que só gente local viaja neste momento. Isso tem o seu lado bom. Sinto a cultura e os costumes deste povo que nem sempre são… confortáveis.
A três horas de bus de La Paz, começa a minha viagem.
Por dentro a camioneta ainda continua velha, mas também não interessa. Saímos de Copacabana e a primeira hora de viagem é com o Lago Titicaca de fundo. Se olharmos à primeira parece que estamos a olhar para uma costa atlântica, vemos as margens, mas em alguns sítios as nossas vistas perdem-se na imensidão da água.
Chegamos a um ponto onde a estrada termina, uns breves segundo a raciocinar e apercebi-me que vamos ter que atravessar num ferry ou numa coisa parecida.
De facto foi numa coisa parecida.
Saio da camioneta e encaminham me para uma lancha muito velha, com um motor fora de bordo que parecia estar desmontado, e com uma capacidade de 6 pessoas talvez, mas que iam atravessar uma porção do lago umas 15. Estamos na América do sul.
A viagem foi curta. Vesti um colete e aproveitei a viagem.
A camioneta viajou num barco específico. Imaginem uma base de madeira, capaz de suportar um autocarro, com uma estrutura flutuante e com um motor fora de bordo pequenino. Surreal.
Lá chegou a camioneta a seguimos para La Paz.
A viagem para além de desconfortável a vista é horrível.
A estrada percorre imensos povoados onde nos deparamos com uma pobreza extrema.
Com animais a conviver junto com as pessoas, com casas completamente destruídas, outras ainda em construção e já destruídas. Tudo partido e muito sujo.
Um cenário muito triste.
Comecei-me a aperceber que estava a chegar a La Paz porque as casas começaram a aparecer com mais frequência e deixaram de existir intervalos entre as mesmas.
As casas aqui são terríveis. Têm um costume de construir as casas em tijolo mas ficam mesmo assim, em tijolo. Não levam nem massa nem pintura por cima. É tudo muito feio.
La Paz é uma cidade a 4000 metros de altitude, que fica no fundo de um vale com um cenário montanhoso em redor fabuloso e fantástico, cenário este que contrasta de forma brutal com a cidade.
A cidade é terrível. O trânsito é caótico e desordenado, as pessoas amontoam-se na rua a vender tudo e mais alguma coisa, tudo muito sujo e com muita pobreza.
Foi a minha visão à entrada e também à saída da cidade.
Tentei passar o mínimo de tempo aqui porque não gostei.
Depois de a camioneta me abandonar não sei muito bem onde, apanhamos um táxi e que nos levou à procura de um sítio para dormir.
Não tinha nada marcado, mas à terceira tentativa arranjei um quarto individual no centro da zona turística num hotel de duas estrelas, rio-me das duas estrelas, mas por 90 bolivianos não se poderia esperar muito mais, cerca de 8 euros.
Alojo-me e arranjo um sítio para comer qualquer coisa com os meus amigos.
Uma noite de conversa interessante, de partilha de cultura e de destinos de viagem. Muito agradável este ambiente cultural que se vive entre gente que viaja com mochila às costas.
















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