terça-feira, 14 de junho de 2011

O caminho

11 de Junho
 

O dia que me esperava é curto mas muito intenso.
A brincadeira do dia anterior teve um fim mesmo no dia anterior.
Fui acordado por um carregador. Veio me dar bom dia e oferecer um chá de coca para me dar energia para o caminho. J
Fabuloso.
Depois de um pequeno almoço com papa de aveia, panquecas, e pão começamos a nossa caminhada. Chegamos imediatamente a Wayllabanba uma povoação muito perto de onde dormimos a 3000 metros de altitude.

O dia de hoje teve uma dificuldade grande, se não estivesse habituado a este tipo de terreno e estivesse em perfeitas condições físicas tinha penado bastante. Mas estive muito bem.
Então o caminho de hoje subia dos 3000 metros aos 4200 em supostamente 5h30 minutos. Loucura. Com dois pontos de descanso pelo meio onde estavam nativos a alimentar os carregadores que acompanham as empresas que têm concessão para explorar o caminho, e para venda de agua e alguns snacks aos caminhantes.

Já prevenido, pelas provações que vou cruzando vejo crianças, pequenitos, olho para eles e saco da minha mochila alguns chupa-chupas e rebuçados que lhes vou oferecendo. Sorriem… Fantástico ver uma criança a sorrir.. Especialmente quando penso que são super infelizes. Não são, vivem é na cultura deles.
Encosta a cima, sempre a subir, ponham subida nisso que não estava fácil. Estou bem, subo no meu passo e o caminho da primeira hora e meio, faço-o em 50’ super tranquilo. Tenho o meu corpo adaptado à altitude.
Aproveito para sacar umas fotos e antes de começar a arrefecer sigo para o segundo ponto de descanso.
O nosso  guia deu-nos liberdade para tomarmos o nosso tempo na subida e por isso caminhei sozinho grande parte do tempo. Faz me bem-estar só.
No caminho cruzo me com outros caminhantes menos bem preparados e cruzam-me carregadores e passam por mim a abrir carregados com 20 kilos às costas. Têm um condicionamento físico e um corpo completmente adaptado a estes terrenos.

A partir deste ponto começamos a ter acesso as primeiras escadarias, tão típicas e famosas do tempo Inca.
No segundo ponto paro mais um pouco e arrefeço. Espero pelo meu grupo e compro alguns snacks e agua as senhoras que por ali tentam fazer algum dinheiro. Tento comprar um snack a cada uma delas. Estamos em Llullucha Pampa. Vejo ao longe pela primeira vez uns Lamas. Estamos a 3700 metros.
A partir deste ponto começamos a ter acesso as primeiras escadarias, tão típicas e famosas do tempo Inca.
O próximo ponto é o passo da Mulher morta, Warmiwanusca. Um colo a 4200 metros de altitude.
Do ponto de descanso até lá em cima são 2h30 sempre a subir. Estou bem, demoro uma hora e vinte, mas quando paro para sacar umas fotos tenho o coração a 80/85%. Começo a sentir algum cansaço e a sentir as pernas. O terreno é mesmo muito inclinado e estes degraus não são propriamente fáceis de subir.
Olho para cima, vejo escadaria e o colo a ficar cada vez mais perto, olho para baixo e vejo o que já subi.
Aqueles que caminham por ali, dizem-me noutras línguas que estão orgulhosos de mim por trazer a minha mochila com as minhas coisas. Responde-lhes que a minha mochila é parte de mim. Pagar a um carregador para me trazer a mochila era pedir-lhe que me carregasse. Faço questão de sentir o peso da subida. Já basta eles carregarem a minha tenda e a minha alimentação.

Chego lá em cima com uma hora e vinte. Escolho um sítio abrigado, agasalho-me e espero pelos meus companheiros que vão chegando. Contemplo as vistas. Estou no ponto mais alto do caminho.
Passam uns longos minutos e começo a bater o dente, estou a ficar com frio e quero fazer a ultima descida que me espera até ao acampamento, em Pacaymayu, que não é nada mais que um o fundo de um vale com uma zona plana para os caminhantes pernoitarem.
A partir deste momento, no momento em que se inicia a descida que me leva numa hora e pouco dos 4200 metros até aos 3600, começa o verdadeiro caminho Inca, lajeado, sem falhas por blocos e lajes de granito, que nos vai levar até Machupichu.

Na altura Inca, o povo quechua construiu imensos caminhos que percorriam estas fantásticas montanhas andinas, por km e km, por zonas completamente inóspitas e inacessíveis, e que aos meus olhos são fruto de uma completa loucura. É simplesmente incrível o que este povo fez.
Agora o porque, de, só a partir do meio do segundo dia de caminhada entramos no caminho Inca original.
Um pouco de história antes de chegar ao acampamento.
Esta zona da América do Sul era habitada no sec. V por imensos povos, todos de origens indígenas que se tinham espalhado pelas montanhas dos andes. O povo quechua surgiu como conjugação de todos estes povos comandados por um só rei, o Inca.
Era um povo, com uma ligação muito especial com a natureza e adoravam tudo aquilo que ela lhes proporcionava.
As suas construções, os seus templos, são todos construídos respeitando a morfologia do terreno, e em muitas das ruínas se constata que os seus principais deuses era o Sol a Lua e as Estrelas. Acreditavam que as montanhas, enormes que rodeavam as suas pequenas povoações eram deuses e por isso as construções que faziam nas montanhas preservavam sempre o lugar. Aqui se percebe bem a minha curiosidade por este povo.

Adoravam a Serpente, o Condor e o Puma, e nas construções que faziam colocavam sempre estes elementos.
Continuando, a capital deste reino foi sediada em Cuzco, era aí onde estavam os grandes templos e onde viveria o Inca. Todos estes dados surgem como conjunturas porque este povo não nos deixou nada escrito.
Em 1500, altura dos descobrimentos, desembarcaram na costa Peruana descobridores espanhóis que literalmente arrasaram com a cultura deste povo.
Conquistaram e destruíram literalmente tudo que era templos Incas, e construíram as igrejas por cima, as mulheres foram mortas e violadas e o povo foi aniquilado e foi obrigado a converter-se ao cristianismo. Os que não foram aniquilados, ou se “converteram” momentaneamente ou fugiram para o interior.

O interessante é saber como é que um número tão pouco numeroso de conquistadores espanhóis conseguiram aniquilar um número tão grande de Quechuas.
A historia aqui é interessante.
Já sabemos que todos os povos foram um dia conquistados, aconteceu isso com todos os povos, mas o porquê de destruir e não respeitar os costumes daqueles que foram conquistados. Vamos perceber.
Em Espanha nessa altura, neste tipo de descobrimentos dava-se a opção de escolha àqueles que estavam condenados à morte nas celas espanholas, de morrer na cadeia, ou ir à conquista de terras desconhecidas e procurar a glória e a riqueza.

Aqui está a resposta, os descobridores do Peru, eram ex-reclusos, condenados à morte, logo, matarm, violaram e destruíram.
Mas como conseguiram domina-los, sendo em tão pequeno número?
Nessa altura, os únicos animais domésticos que tinham era lamas e burros e usavam indumentarias muito simples fabricadas à base de têxteis. Quando estes viram os espanhóis montados em cavalos grandes e armados com armaduras que reluziam à luz do sol, pensaram que eram deuses, filhos do Deus Sol que tanto eles adoravam. Desta forma subjugaram-se e entregaram-se nos braços dos espanhóis.
Os que escaparam para as montanhas, tentaram de todas as formas destruir o inicio dos caminhos que os levavam para as povoações e locais de culto no interior das montanhas. Desta forma, os espanhóis não conseguiram encontrar os caminhos que os levavam até locais como Machupichu, ficando estas povoações isoladas e abandonadas até ao inicio do sec. XX.

Retomando o meu caminho, a descida para o acampamento é brutal, descemos vários minutos se parar. A descida é agreste, toda lajeada em pedra. Aqui começa o verdadeiro caminho. Nesta altura, de pedra em pedra, de salto em salto, começo a sentir uma ligeira dor de cabeça mas sigo descendo, e só paro para sacar umas fotos.
A paisagem é linda, sinto me engolido pelas montanhas, estou rodeado por enormes cumeadas que me envolvem e me deixam tranquilo.
A vegetação torna-se diferente, à medida que vamos caminhando, aproximamo-nos da selva.

Cheguei ao acampamento e lá estavam os fantásticos carregadores da nossa equipa com a bandeirinhada empresa. Indicam-me o local onde vou poder descansar. Colocam-me no chão imediatamente um oleado para colocar a minha mochila enquanto me montam a tenda.
Não estou mesmo habituado a isto. Não me deixam ajudar, tento compensar com um sorriso de simpatia quando passo por eles. E agradeço lhes em quechua “Sullpaiki”J
O local de acampamento é um espaço amplo, muito pouco, wildlife, com infra-estruturas para receber, muitos caminhantes por dia. Tem casas de banho rudimentares e socalcos para montar tendas.
Almoçamos tarde e o almoço foi mais um vez fabuloso.
Na pequenina tenda de campanha temos uma sopa e um bifinho com arroz e salada de tomate. Tenho adorado os momentos de almoço e jantar. Acho um ambiente fantástico.
Sento-me na tenda tomo um banho mais prolongado de dodots, e adormeço. Acordo para a happy hour, um pequeno lanche com pipocas e umas tostas chinesas.
O jantar chega cedo, cha de camomila e cama.
A noite tem um ar místico no cimo do vale do rio Urubamba. Tenho um desfiladeiro inacessível à minha frente e as nuvens estão abaixo do meu nível. Um belo cenário para contemplar e agradecer a “pachamama” pelo dia que me proporcionou.











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